Nós, seres humanos, utilizamos imagens para nos comunicarmos. Aliás, foi através de desenhos em paredes de cavernas que pudemos conhecer um pouco de como era a vida há milhares de anos.
A evolução das tecnologias audiovisuais nos mostrou, ainda com mais força, como a linguagem visual é presente em nosso dia a dia e o que podemos comunicar através dela. O que pode, às vezes, nos faltar em palavras escritas ou faladas, pode ser expresso por uma imagem, que incentiva o pensamento e a reflexão através da visão.
A leitura de imagens pode ativar memórias, sentimentos e opiniões sem que seja preciso saber ler ou escrever. “As linguagens são recursos expressivos de representação da realidade e de comunicação. Elas funcionam como veículo para o intercâmbio de ideias e forma de interlocução. Portanto, é ilusória a exclusividade da linguagem verbal como forma de linguagem e meio de comunicação privilegiados.” (COUTO, 2000, p.11-12).
Neste artigo, veremos como ela é importante na escola e alguns métodos para fazê-la.
Descoberta e interpretação do mundo
Uma das formas de entendermos o mundo é através das imagens. No mundo contemporâneo, nossa visão nos permite o tempo todo receber informações através de filmes, vídeos, sinais e em uma grande quantidade de figuras.
Ao interagirmos com imagens, conseguimos ler mensagens, sentir emoções e fazer perguntas que muitas vezes necessitam de uma interpretação mais detalhada ou perceptiva. Interpretar nos exige pensamento crítico e criativo, que é uma competência geral da Base Nacional Comum Curricular e uma importante habilidade de participação social dos indivíduos.
O estudo da linguagem visual na educação escolar deveria precisamente ajudar-nos a escapar da impressão de passividade e permitir, ao contrário, tornar aparentes as convenções, a história e a cultura mais ou menos interiorizadas que estão em jogo em cada imagem visual. Conhecendo a linguagem visual, estaremos em melhores condições para analisar e compreender, em maior profundidade, uma das ferramentas efetivamente predominantes na comunicação contemporânea: a imagem visual.
(COUTO, 2000, p.35).
Para isso acontecer, é necessário que os educadores tragam para os aprendizes a arte e a linguagem visual como repertório, de forma que eles possam usar seus conhecimentos prévios para fazer descobertas com autonomia e autoria no processo, e possam desenvolver suas habilidades de interpretação e pensamento crítico, percebendo elementos como sinais, formas, luzes, cores, gestos, objetos, olhares e expressões.
A alfabetização visual
Esta expressão começou a ser utilizada na década de 70 e, com os grandes avanços da mídia, muitos educadores e filósofos sentiram a necessidade de analisar sua influência na sociedade e valorizá-la na formação dos indivíduos e na preparação dos aprendizes na escola. Freire (1983) diz que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Com isso em mente, podemos perceber a importância das imagens na vida cotidiana e escolar. Ao preparar os aprendizes para serem leitores do mundo, como não considerar a leitura de imagens?
Cabe aqui um parêntese. É importante falar sobre os aprendizes que têm uma deficiência visual. A experiência e o desenvolvimento das habilidades para a comunicação visual através da interpretação que utiliza os outros sentidos garantem a inclusão de todos os aprendizes. As imagens podem ser descritas pelos colegas, sentidas com as mãos e reproduzidas de formas diferentes.
A percepção é um dos pontos principais da leitura de imagens. Ela permite a investigação dos elementos visuais e códigos utilizados. Em seu livro “Arte e Percepção Visual” (1989), Rudolf Arnheim definiu dez categorias visuais: equilíbrio, figura, forma, desenvolvimento, espaço, luz, cor, movimento, dinâmica e expressão. Através delas, podemos entender como os elementos se relacionam para expressar falas, mensagens e narrativas.
Por isso, a alfabetização plena do aprendiz precisa incluir a linguagem visual. Além da leitura da palavra, os educadores devem se preocupar em ajudar os alunos a interpretar as imagens do seu cotidiano, a perceber como elas proporcionam novas oportunidades de vivência, e a aprender como fazer sua leitura diante de diferentes contextos da vida. Através dessa vivência, é possível encontrar representatividades de grupos diversos e de realidades culturais que encontram um espaço em imagens para se expressar. Saber para quem, onde e em que circunstâncias elas foram feitas nos ajuda a interpretá-las e a valorizar as mensagens que expressam. E estes fatores estão contemplados nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) para que os estudantes aprendam a analisá-los ao considerar o objeto artístico, neste caso as imagens, como produção cultural, documento do imaginário humano, sua historicidade e sua diversidade (BRASIL, 1997, p. 45).
Métodos de leitura de imagens
Robert William Ott, professor da Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos, desenvolveu a metodologia Image Watching (Olhando Imagens), que nos dá oportunidades para a observação, descrição, análise, fundamentação, contextualização e interpretação de imagens. Há diferentes métodos para essa leitura. Um deles utiliza uma interpretação mais intelectual em que o repertório e o conhecimento prévio do aluno enriquecem o processo. Podemos considerar em fotografias, por exemplo, o tipo de lugar fotografado, o que poderia ser feito nesse local, os lugares que você já visitou que são parecidos com ele ou que têm o mesmo visual, o nome que você daria a ele, etc. Desta forma, os aprendizes podem “entrar” nas fotografias e fazer a conexão entre os elementos que veem e elementos de suas vidas, desde a identificação de suas cores e formas até a reflexão sobre os valores e ações da sociedade que eles representam. Além do trabalho de Ott, o site Project Zero da Universidade de Harvard também propõe rotinas usando o pensamento para fazer a análise e a leitura de imagens considerando diferentes pontos de vista e de percepção. Os métodos e modelos que podem ser usados pelos educadores são vários.
O grande passo a ser tomado é a reflexão: como desenvolver habilidades para a alfabetização visual nas práticas pedagógicas? Com essa pergunta em mente, podemos entender que devemos começar por nós mesmos de modo a nos tornarmos mediadores de um processo de aprendizagem que garanta uma alfabetização plena, que envolva todos os sentidos dos aprendizes.
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