A prática educacional não se restringe às questões pedagógicas, mas também envolve os diversos aspectos sociopolíticos, dentre eles as leis, a economia, a justiça, o cenário social, etc. E as tendências pedagógicas, por sua vez, tratam da relação entre a Educação, o tempo histórico e as questões sociais e econômicas que formam a sociedade, sendo fortemente influenciadas pelos movimentos sociopolíticos e filosóficos de cada época.
Aliás, o termo “tendências”, nesse contexto, se refere ao fato da Educação acompanhar o contexto histórico, ou seja, à forma como elas foram sendo desenvolvidas com o tempo. Portanto, elas podem ser vistas de forma implícita ou explícita dentro das salas de aula, o que influencia diretamente o modelo educacional nas escolas.
Antes de citar quais são as tendências pedagógicas, é importante saber que elas se dividem em dois grandes grupos: a Pedagogia Liberal, que propõe a preparação do aluno para desempenhar papéis sociais de acordo com os valores e normas da sociedade e conforme as suas aptidões individuais, e a Pedagogia Progressista, que tem como premissa a análise crítica das realidades sociais, promovendo uma educação voltada para o indivíduo enquanto sujeito que constrói a sua própria realidade, aliando o caráter pedagógico e o político.
A Pedagogia Liberal abrange quatro tendências pedagógicas:
Tradicional;
Renovada Progressivista;
Renovada Não-Diretiva;
Tecnicista.
Já a Pedagogia Progressista abrange três tendências pedagógicas:
Libertadora;
Libertária;
Crítico-Social dos Conteúdos (Histórico-Crítica).
Tendência Liberal Tradicional
Consiste num processo de adaptação ao sistema capitalista e tem como premissa a transmissão de padrões, normas e modelos dominantes, preparando o indivíduo para as práticas sociais e valores liberais. A escola é concebida como um espaço de disciplinamento, em que a aprendizagem se dá de forma passiva, repetitiva e baseada na memorização dos conteúdos. O ensino é mecânico e focado na figura do professor, o único responsável pela transmissão de conteúdos.
Trata-se de um modelo educacional ainda bastante presente nas escolas brasileiras, em que o formato característico da sala de aula é o de carteiras enfileiradas voltadas para o professor. E o educador, por sua vez, assume uma didática com base na generalização, utiliza o método expositivo, verbal, para transmitir os conteúdos e fazer uma avaliação tradicional dos alunos por meio da aplicação de provas.
Esse é um dos grandes desafios das escolas da atualidade, que se atêm ao modelo tradicional de ensino, com um alto número de alunos por sala, poucos recursos de trabalho, baixos salários dos docentes, entre outros entraves.
Tendência Liberal Renovada Progressivista
Também chamada de Tendência Renovada, ganhou ascensão entre o final do século XIX e início do século XX com a proposta de renovação da escola, que deveria assumir um papel mais atuante na realidade social do aluno, além da criação de novas unidades de ensino a fim de atender a quantidade de alunos na época.
Nesse modelo, a escola passa a ser um ambiente estimulador, favorável à experiência dos estudantes, e a metodologia de ensino deixa de ser meramente uma abordagem expositiva, abrindo espaço para experimentos e pesquisas. O professor, então, passa a elaborar situações-problema e desafios, respeitando as necessidades individuais dos alunos e as suas devidas fases de desenvolvimento, assumindo o papel de mediador em sala de aula.
O processo de aprendizagem é baseado em planejamentos e testes. Com isso, os alunos passam a construir conhecimento, sendo estimulados a terem novas experiências, a aprender fazendo e a aprender a aprender.
Tendência Renovada Não-Diretiva
Com novos ideais de renovação para as tendências pedagógicas no Brasil, foi criado um movimento chamado Escola Nova, que defende uma educação diretamente relacionada às questões psicológicas dos alunos. Portanto, em vez de enfatizar os conteúdos, essa tendência pedagógica promove a autoaprendizagem, o autoconhecimento, o desenvolvimento da personalidade e a realização pessoal.
Os conteúdos ganham significação pessoal, atendendo aos interesses e aspectos motivacionais do aluno, envolvendo atividades ligadas à expressão, sensibilidade e relações interpessoais, principalmente com trabalhos em grupo. Ou seja, a educação passa a ter como cerne o desenvolvimento da capacidade e o fortalecimento do lado psicológico, com o propósito de evitar que o aluno apresente transtornos ou problemas dessa natureza.
O professor, então, passa a atuar mais como um terapeuta do que propriamente como a figura que transmite informações ou que faz mediações em sala de aula, numa relação baseada na afetividade.
Tendência Liberal Tecnicista
Tem como foco principal a profissionalização do aluno, preparando-o para atuar no mercado de trabalho e integrá-lo ao modelo social vigente. Para produzir mão de obra qualificada, o teor dos conteúdos é técnico e extremamente objetivo, contemplando as práticas do dia a dia de trabalho, além de conteúdo científico.
São utilizados manuais, apostilas e livros como materiais didáticos pelo professor, que é o técnico responsável por administrar o processo de ensino, transmitir o conteúdo e avaliar os alunos.
A seguir, abordaremos as tendências pedagógicas progressistas, em que os aspectos políticos da Educação ganham mais força dentro das escolas como uma das principais características desse grupo, favorecendo uma abordagem com um ponto de vista histórico-social e análise crítica das realidades sociais.
Tendência Progressista Libertária
Essa tendência pedagógica promove o distanciamento da participação do Estado nas questões educacionais por meio da escola autogestionária administrada por conselhos, os quais determinam o currículo escolar e o método de ensino.
O processo educativo acompanha a perspectiva social das tendências pedagógicas progressistas, com um ensino voltado para as necessidades do aluno e a sua realidade, com ênfase nas lutas sociais e uma metodologia voltada à vivência grupal. O professor propõe a resolução de problemas práticos e conteúdos, sendo um orientador do grupo, sem impor suas ideias e convicções.
Neste caso, não há uma cobrança em relação à avaliação do aluno, como a realização de exames, o que pode comprometer o controle sobre o rendimento dos estudantes e a percepção sobre a eficiência do ensino.
Tendência Progressista Libertadora
Aqui, a escola é concebida como um ambiente de transformação social, valorizando os chamados temas geradores – uma proposta de Paulo Freire –, que fomentam um processo de conscientização da própria realidade dos alunos, envolvendo questões sobre a prática social, do trabalho e suas relações sociais, baseadas nas experiências levadas pelos educandos à sala de aula.
A relação entre professor e aluno se dá de forma horizontal, na base do diálogo, em que ambos compartilham o ato de educar com o intuito de propiciar a construção do conhecimento em conjunto, com uma metodologia apoiada na problematização das experiências sociais em grupos de discussão, favorecendo o método construtivista, idealizado por Jean Piaget.
Tendência Crítico-Social dos Conteúdos ou Histórico-Crítica
Esta é uma tendência das décadas de 70 e 80, quando a disseminação e criticidade dos conteúdos científicos e universais ligados à realidade social eram altamente valorizadas. Ela parte da premissa de que o aluno não possui conhecimento sobre a sociedade, tendo uma visão fragmentada e desorganizada, o que necessitaria da intervenção do professor.
Desse modo, visando a autonomia do aluno, o educador atua como um orientador num método dialético, que coloca em confronto as experiências pessoais dos alunos e o conteúdo a ser passado, e em que o professor transmite a sua visão da realidade. O intuito é promover uma nova perspectiva aos estudantes, mais organizada e unificada com um posicionamento crítico.
Por que saber sobre as tendências pedagógicas?
É importante conhecê-las para entender o percurso histórico que a educação vem seguindo, já que algumas características dessas tendências foram sendo incorporadas aos fazeres pedagógicos de muitos profissionais e escolas.
Sempre é bom lembrar que a escola e as tendências pedagógicas são um reflexo das transformações que a sociedade e as culturas sofrem ao longo dos anos. Não é uma questão, necessariamente, de ser melhor ou pior, ou do apagamento por completo de tendências antigas. Há sempre uma incorporação e modificação de novas maneiras de agir em sala de aula que correspondem às necessidades daquele momento histórico que se vive.
Saber sobre as tendências pedagógicas nos ajuda a compreender porque certas práticas não funcionam ou não parecem efetivas em determinados contextos educacionais, ou porque ainda fazemos certas coisas em sala de aula. Elas nos ajudam a olhar criticamente para nossa própria prática, questioná-la e adequá-la ao cenário onde atuamos e evoluirmos.
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Pedagogia, coordenador pedagógico, planejamento pedagógico muito boa essa explicação, super detalhada amei.