Apesar de parecer uma prática recente, o conceito de aprendizagem colaborativa tem sido amplamente testado e utilizado por educadores, teóricos e pesquisadores há tempos. Não é de hoje que alunos de todas as idades são estimulados a aprender e trabalhar em grupo nas mais diversas disciplinas, com o intuito de prepará-los para os desafios da vida real, especialmente no âmbito corporativo, onde a questão da colaboração é bastante valorizada.
“A natureza colaborativa do trabalho científico e tecnológico deveria ser fortemente reforçado por atividades frequentes de grupo na sala de aula. Cientistas e engenheiros trabalham na maior parte do tempo em grupos e menos frequentemente como investigadores isolados. Igualmente, estudantes deveriam ganhar experiência compartilhando responsabilidade para aprender uns com os outros.”
Associação Americana para o Avanço da Ciência (1989)
Importante ressaltar que a aprendizagem colaborativa contribui para uma sociedade mais equitária, já que favorece o engajamento de todos os envolvidos no processo de ensino-aprendizagem, sendo assim, um exercício também de cidadania.
Atualmente, a aprendizagem colaborativa em sala de aula vem tomando um novo formato. Se antigamente um trabalho em grupo consistia na reunião dos alunos para definir uma divisão de tarefas, hoje em dia, se promove essencialmente a discussão, o aprendizado em conjunto, a troca de opiniões e a apresentação de pontos de vista sobre uma mesma questão.
Segundo a pedagoga Claudia Siqueira, em entrevista à TV Cultura, o poder de retenção do conteúdo em uma aula expositiva fica entre 5% e 20%, enquanto no trabalho em conjunto esse índice passa para aproximadamente 75%. E, ainda, num cenário em que o aluno assume uma posição ativa e explica algum conteúdo nesse processo de aprendizado colaborativo, ele tem uma assimilação de até 90%.
O que é Aprendizagem Colaborativa?
Mais do que proporcionar um aprendizado atraente, essa abordagem tem como premissa tornar o processo educacional mais significativo e proveitoso ao aluno. Para isso, são adotados práticas pedagógicas mais dinâmicos em sala de aula, com a participação ativa dos alunos, que são colocados como agentes no processo de ensino.
Na prática, a aprendizagem colaborativa parte de uma demanda que surgiu em sala de aula para que os alunos discutam em grupo sobre o assunto e, assim, possam desenvolver uma solução ou chegar a um consenso. Para isso, deve ser levado em conta o posicionamento de cada um, promovendo o respeito às diferenças, além da realização intensa de pesquisas.
Ao contrário da pedagogia tradicional e outros modelos diretivos de ensino, conforme abordamos no artigo sobre as tendências pedagógicas na prática escolar, a aprendizagem colaborativa propicia uma abertura ao senso crítico dos aprendizes, que passam a questionar e argumentar mais, sendo algo bastante presente nos debates em sala de aula.
Com isso, eles constroem a própria identidade e desenvolvem habilidades da arte de se relacionar, tanto na sua comunicação quanto nos aspectos psicológicos e socioemocionais, como o respeito mútuo e empatia. Isso é possível por meio da troca de experiências, planejamento, envolvimento e motivação em conjunto que acontecem durante as atividades colaborativas.
“Todas as funções psicológicas superiores são formas internalizadas de relações sociais.”
Lev Vygotsky
Atividades colaborativas em sala de aula
Num primeiro momento, é importante citar que, assim como nas metodologias ativas de aprendizagem, no STEAM, na aprendizagem experiencial e outros métodos pedagógicos da educação contemporânea, o espaço escolar ganha um formato que favorece tanto a participação ativa e interação por grupos quanto o uso de ferramentas digitais.
Ao estabelecer uma proposta de aprendizagem colaborativa, o educador deve levar em consideração as características e peculiaridades dos aprendizes – ou dos grupos, assim como a sua própria personalidade e a sua formação pessoal e profissional. Para incorporar esse método, sem passar por cima de tais limitações, o professor pode analisar:
- É a primeira vez que eu leciono essa disciplina?
- Possuo alguma experiência com atividades de aprendizagem colaborativa ou avaliação colaborativa?
- Qual é o meu estilo de ensino?
- Ficarei confortável ao tentar novas práticas?
- Existe algum risco?
Do mesmo modo, devem ser considerados os fatores que vão compor essa estratégia, como o tempo de duração, local, materiais, frequência, custos, etc., além da forma que ela será colocada em prática.
Esse é um ótimo ponto de partida para planejar a adoção dessa abordagem de ensino. Entretanto, vale ressaltar que nem sempre são exigidos variados recursos para a sua implantação. Quaisquer exemplos de atividades que envolvam a cooperação entre os pares, seja em práticas mais simples, como grupos de discussão, até as mais elaboradas, que contam com o uso da tecnologia, compreendem a aprendizagem colaborativa.
Como engajar seus alunos?
É fato que quando a tecnologia está presente no contexto escolar, o processo de ensino-aprendizagem fica muito mais interessante, especialmente no que concerne ao engajamento dos alunos. Por isso, as ferramentas digitais têm cumprido um papel importante nas práticas pedagógicas, proporcionando meios para garantir essa interação e cooperativismo entre os alunos, professores e até mesmo com os pais.
Primeiramente, é fundamental que se crie uma cultura colaborativa em toda a comunidade escolar, promovendo a receptividade e o estreitamento das relações, num ambiente aberto ao diálogo e esclarecimentos. Ao despertar esse senso de colaboração, o educando se sente parte da comunidade em que ele vive, trazendo significado ao aprendizado e o estímulo para que ele seja um agente que pode melhorar a sociedade.
“Quando entende que o seu destino depende do destino do grupo inteiro, o sujeito sente vontade de assumir uma parte da responsabilidade pelo bem-estar geral.”
Kurt Lewin
Com a internet, surgiram diversos recursos eficientes que contribuem para a didática da aprendizagem colaborativa e que, especialmente em tempos de isolamento social e de aulas em casa, estão sendo bastante úteis. Os mais comuns são:
- Fórum on-line: usado para compartilhar conteúdos de diversos formatos, como vídeos, textos e imagens, permitindo a entrega de trabalhos, esclarecimento de dúvidas, troca de informações e debates em tempo real. Esse recurso pode ser usado tanto numa plataforma própria da escola quanto em alguma rede social que permita a criação do fórum.
- Chat: indicado principalmente para interações pontuais entre aluno e educador, também funciona em tempo real. O professor pode estabelecer um período para ficar on-line na plataforma, que pode ser combinado com a própria turma.
- Blog: além de envolver educadores e aprendizes, o blog permite o acesso de toda a comunidade escolar, inclusive os pais, que podem se aproximar desse processo colaborativo na construção de conhecimento, acompanhando e até participando das postagens. Geralmente, cada blog aborda uma área específica, como ciências e tecnologia, ou literatura, português, dentre outros temas.
- Gamificação: usa estratégias de jogos para engajar os alunos no seu aprendizado, gerando estímulos para a cooperação, competitividade, busca por recompensa e superação, num ambiente lúdico, desafiador e com trabalho em equipe. Pode ser adotada em projetos interdisciplinares, podendo incluir também novas tecnologias em sala de aula, como o uso de tablets e aplicativos de celular.
Aprendizagem colaborativa no ensino remoto
Dependendo das aptidões e do grau de conhecimento dos aprendizes em relação ao uso da tecnologia e da internet, é possível contar com as ferramentas digitais nesse momento de reestruturação do ensino, que, como medida emergencial, passou a adotar aulas remotas. Confira algumas opções interessantes:
- Blackboard: plataforma completa com soluções de aprendizagem colaborativa on-line. Proporciona a sensação de que todos os alunos estão juntos, na mesma sala, por meio de ferramentas de colaboração e conferência.
- ClassDojo: possibilita a criação de comunidades, como salas de aula virtuais, a fim de conectar alunos, professores e pais. Permite o compartilhamento de fotos, vídeos e mensagens, dentre outros recursos que potencializam o aprendizado, podendo ser acessado por qualquer dispositivo.
- Google Classroom: conecta as turmas de forma remota, contando com uma série de funcionalidades que contribuem para facilitar a comunicação, a colaboração e organização de processos.
- Moodle: sistema de gestão da aprendizagem que permite a criação de um site, como forma de disponibilizar materiais didáticos e outros conteúdos, fazer avaliações e propor atividades interativas com os alunos.
Além de ser uma grande aliada no processo educacional, o uso da tecnologia na aprendizagem colaborativa está alinhada às competências da BNCC, que, dentre elas, incentiva a cultura digital, além do pensamento científico, crítico e criativo. E esse é o caminho para despertar o gosto pelo conhecimento e preparar o aluno para o futuro, formando um adulto responsável e consciente do seu papel na sociedade.
“Nós precisamos uns dos outros. Esse tipo de interdependência é o maior desafio imposto à maturidade do indivíduo e do funcionamento do grupo.”
Kurt Lewin
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