A Fundação Maria Cecília Souto Vidigal é uma instituição que procura qualificar a educação infantil, fortalecer o cuidado com a criança, ter sistemas de avaliação para verificar como suas necessidades são atendidas e ainda sensibilizar a sociedade para questões ligadas à primeira infância. Segundo ela, apenas 19% dos brasileiros acreditam que brincar e passear são importantes para a criança de até 3 anos. Este é um dado chocante, não é mesmo? E você sabe por que defendemos o brincar? Você sabe da importância do brincar para a criança? E qual a importância do brincar em contextos bilíngues?
A importância do brincar no desenvolvimento infantil
Nosso primeiro brinquedo é o nosso corpo. Quando bebês, nós brincamos com o pé, com a mão. Depois aprendemos a engatinhar e a falar e ganhamos outros repertórios de brincadeiras. A criança conhece os gestos da sociedade em que está inserida e também os seus objetos por meio delas.
Educadores, pediatras e pesquisadores do mundo inteiro compreendem a importância do brincar para o desenvolvimento e construção do ser humano, por isso dificilmente trazem em seus discursos algo como “a criança só brinca“. Isso porque a essência da infância é brincar. Quando a criança brinca, ela explora, elabora sentimentos e faz descobertas. Em brincadeiras de faz de conta, por exemplo, ela descobre papéis, reinventa o mundo e a si mesma, constrói narrativas. Ela recria o mundo à sua semelhança.
(Para saber sobre outros benefícios do brincar para as crianças, leia o artigo “Como o livre brincar contribui para a formação social da criança”.)
A importância do brincar na educação infantil
Nesta etapa da vida, a criança frequenta a escola não como uma preparação para o ensino fundamental. A educação infantil está a favor do pleno desenvolvimento da criança de até cinco anos em seu aspecto físico, psicológico, intelectual e social, como consta no artigo 29 da LDB.
Na educação infantil, espera-se que as escolas assegurem os seis direitos de aprendizagem previstos na Base Nacional Comum Curricular: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se. O próprio brincar aparece como um direito da criança, porque é no brincar de diversas formas, cotidianamente, que ela amplia e diversifica seu acesso a produções culturais, conhecimento, imaginação, experiências sensoriais, emocionais, relacionais, cognitivas. Brincando em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ela também assegura os seus outros cinco direitos de aprendizagem.
Qual a importância do brincar no processo de aprendizagem?
Se brincar é um direito de aprendizagem previsto por lei, brincar é a tarefa da criança. Quando brinca, ela negocia sentidos e significados. Em pares, desenvolve as linguagens que a constitui, porque precisa se fazer entender e compreender. Falamos linguagens, porque não é apenas o repertório verbal da criança que aumenta na brincadeira, mas como se apropria dos gestos e movimentos do seu dia a dia e também como descobre os gestos que fazem parte da cultura em que está inserida.
Mas não é só isso que nos faz defender a importância do brincar para a aprendizagem. Quando brinca, a criança explora e faz descobertas.
Vamos pensar em uma criança em um tanque de areia: ela pode descobrir que nem todos os objetos suportam o peso excessivo da areia, os conceitos de fundo e raso, para que serve uma peneira, propriedades da areia que lhe permitem construir coisas, escavar-esconder-achar-perder, compartilhar. Para os adultos distraídos, parece pouco ou simplório. Mas na e pela brincadeira, ela estará criando a base para alguns conceitos matemáticos, geográficos e científicos que a ajudarão a fazer conexões no seu processo de aprendizagem.
O brincar em contextos bilíngues
Se brincar é parte do currículo na educação infantil, não pode ser diferente em escolas bilíngues e escolas com programas bilíngues. Isso porque educação bilíngue é “Qualquer sistema de educação escolar no qual, em dado momento e período, simultânea ou consecutivamente, a instrução é planejada e ministrada em pelo menos duas línguas” (Hamers e Blanc, 2000).
Sendo assim, é esperado que as crianças brinquem por meio de duas ou mais línguas nos contextos bilíngues. E não apenas pela definição de educação bilíngue que foi dada acima, mas também pelo que o brincar representa. Se ele é um dos meios pelos quais a criança aprende sobre as culturas nas quais está inserida e com as quais tem contato, é direito dela ter acesso ao brincar nas línguas que existem na escola.
A YOU publicou um artigo chamado “Inglês na Educação Infantil e os reflexos na formação de cidadãos bilíngues”. Nesse texto, a educação bilíngue aparece como uma forma de desenvolvimento do respeito à diversidade, estímulo da prática de solidariedade, tolerância e outras habilidades que são adquiridas também pelo brincar. Planejar como e quando as crianças brincam em uma língua adicional é tão fundamental quanto qualquer outra parte do currículo. Até porque, pensar qual será esse repertório de brincadeiras que será ofertado é uma escolha que pode ampliar ainda mais a visão de mundo da criança.
Brincadeiras de roda, jogos, com rimas e parlendas devem estar presentes nos contextos bilíngues, aumentando tanto o repertório linguístico das crianças quanto o repertório cultural.
Já no livre brincar (para saber um pouco mais sobre ele, é só ler o artigo citado anteriormente), quando a criança é quem lidera sua brincadeira sem interferência do adulto, o papel do educador nesse contexto é pensar em provocações de materiais e espaços para que a criança acesse as línguas nas brincadeiras. Com bom contextos provocativos de brincadeiras, as crianças trazem espontaneamente as línguas que possuem em seu repertório sem que o adulto precise interferir. E é um bom momento para observar como elas lidam com seu repertório linguístico enquanto brincam.
Separamos algumas brincadeiras para analisar e inspirar:
Hide and seek
O famoso esconde-esconde auxilia as crianças a recitar os números. No início desse processo, elas costumam pular números e trocar a ordem. Educadores podem auxiliar nas primeiras vezes e depois deixar que as crianças liderem a brincadeira para poder observar como atuam nela e como resolvem essas questões numéricas. E depois, na brincadeira ou em outro contexto, pensar em como fazê-las avançar na contagem.
Além disso, essa brincadeira é uma forma de ajudá-las a lidar com a ansiedade. Quem nunca teve contato com uma criança que gosta de dar uma espiadinha?
Dramatic Play
Jogos simbólicos são tão ricos e potentes que precisariam de um artigo só para eles. O uso de objetos dispostos de forma atrativa e contextos planejados e organizados para provocar e estimular as crianças a pensar que estão dentro deles fazem com que as crianças não apenas usem o seu repertório linguístico, mas as ajudam a elaborar questões internas e a aprender mais sobre as culturas ao seu redor.
Nursery rhymes
Além de fazer com que as crianças aprendam um tipo de vocabulário que não é comum no dia a dia delas, as rimas auxiliam no desenvolvimento da consciência fonológica. Muitas rimas e parlendas exigem que as crianças façam gestos ou se movimentem de alguma forma, o que as transformam em um jogo de concentração.
Elas costumam trazer humor e leveza para diversos momentos da rotina escolar e são carregadas de afetividade, porque acessam memórias tanto da primeira língua quanto das ocasiões em que foram ensinadas e compartilhadas. Nós nunca cantamos ou aprendemos uma parlenda ou rima sozinhos. Sempre há alguém para compartilhá-las conosco. Veja aqui uma lista de algumas.
Hand-clapping games
Estes jogos vêm acompanhados de música e são feitos em pares. Além do repertório linguístico, ajudam no desenvolvimento da coordenação motora e das relações, porque não dá para fazê-los sozinho. Rendem boas gargalhadas, são desafiadores e podem ser feitos em qualquer hora ou lugar. Veja alguns aqui.
Estes são só alguns exemplos de brincadeiras. Há muito o que pode ser descoberto por meio delas em mais de uma língua.
E você? Do que brinca com as crianças em duas ou mais línguas?
- A importância do brincar em contextos bilíngues - 27 de junho de 2022
- Descubra quais são as tendências pedagógicas - 9 de fevereiro de 2022
- Como ajudar meu filho a aprender inglês em casa - 25 de janeiro de 2022
